«Com o falecimento do Professor Arnaldo Sampaio, ocorrido em 1984, perdeu a Saúde Pública portuguesa um dos seus vultos mais insignes no presente século. Trabalhador infatigável da Saúde, que se prestigiou e prestigiou o Pais, nos grandes meios internacionais da especialidade, ao longo da uma fecunda existência dedicada à causa da Saúde Pública — à qual viria a entregar-se por inteiro, após alguns anos de exercício da clínica, logo a seguir à formatura— Arnaldo Sampaio viria a repartir a sua actividade por três sectores fundamentais: o ensino, a investigação e a administração de Saúde.
Na década de 50, foi com Gonçalves Ferreira, um dos principais responsáveis pela reforma do ensino da Saúde Pública no País, tendo vindo, mais tarde, a dar contribuição fundamental para o desenvolvimento da Escola Nacional de Saúde Pública, a cujos destinos presidiu durante alguns anos, como Professor Catedrático de Administração de Saúde Pública. Graças à sua formação e experiência e às suas notáveis qualidades de pedagogo nato, viria a ser o mestre admirado e estimado de muitas gerações de sanitaristas portugueses, que hoje o recordam com saudade e simpatia.
Como investigador, foi, por muitos anos, colaborador do Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge (antecessor do actual Instituto Nacional de Saúde), tendo ai promovido a realização de importantes trabalhos no domínio da Microbiologia, e introduzido a prática das modernas metodologias científicas, que possibilitaram, de forma extremamente significativa, o desenvolvimento de importantes trabalhos de investigação aplicada em Saúde Pública. Foi a sua acção directa que determinou o grande surto de renovação por que passou o Instituto, naquele sector, nas décadas de 40 e 50, dando origem à criação de novas secções, e preparando alguns colaboradores de escol, que viriam a constituir uma equipa altamente especializada e interessada em contribuir para a melhoria da situação da Saúde em Portugal.
Como prático da Saúde, Arnaldo Sampaio teve também ocasião de prestar relevantes contribuições ao País. Ligado aos serviços centrais da Direcção-Geral de Saúde, viria a emprestar ao cargo de Director-Geral, que assumiu no inicio da década de 70, todo o prestígio da sua forte personalidade, tendo colaborado na concepção, elaboração e aplicação da reforma dos Serviços de Saúde portugueses, de 1971, da autoria do seu grande amigo e companheiro de luta Gonçalves Ferreira. As actividades de Arnaldo Sampaio ao longo dos últimos 30 ou 40 anos da sua existência foram tantas e tão variadas, que seria difícil resumi-las numa nota como a presente. Tentaremos, no entanto, fazer um breve apanhado de alguns dos passos mais marcantes da sua vida profissional.
Licenciado em Medicina em 1933, foi contratado pela Direcção-Geral de Saúde, passados 6 anos, para o serviço de combate às epidemias, tendo sido colocado no Laboratório de Bacteriologia Sanitária do Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge, que então constituía uma dependência da Direcção-Geral de Saúde. No intervalo que mediou entre a licenciatura e a sua admissão corno médico da Direcção-Geral de Saúde, efectuou os internatos dos Hospitais Civis de Lisboa e exerceu, durante um curto período, a profissão liberal, como médico de clínica geral, nos arredores de Lisboa (Sintra).
Instalado no Instituto Superior de Higiene, cedo se apercebeu das enormes carências e limitações do respectivo Laboratório de Bacteriologia Sanitária — de cuja chefia fora, entretanto incumbido. Contudo, graças às novas perspectivas criadas ao Instituto pela reforma dos Serviços de Assistência de 1945, foi-lhe possível conseguir uma bolsa de estudos para os Estados Unidos, a fim de obter o grau de «Master of Science in Public Health», na Universidade de Johns Hopkins. Esta permanência nos E. U. haveria de vir a revelar-se extremamente produtiva, pelas repercussões que viria a ter no desenvolvimento dos laboratórios de microbiologia do Instituto.
Em 1953, após um ano de trabalho como investigador do Centro Mundial da Gripe (National Institute for Medical Research, MilI Hill, Londres), foi encarregado de montar e dirigir, no Instituto Superior de Higiene, o Centro Nacional da Gripe, ligado à Organização Mundial de Saúde. Foi então que Arnaldo Sampaio começou a alargar a sua actividade ao campo da Virologia, criando o Laboratório de Virologia do Instituto, que depressa se desenvolveu e distinguiu como um dos mais acreditados no Pais.
Como fruto da sua acção de investigação aplicada, no Laboratório de Bacteriologia Sanitária e no Centro Nacional da Gripe, deixou numerosos trabalhos publicados, que contribuíram para um melhor conhecimento da situação do Pais, em relação a algumas doenças transmissíveis então predominantes, e para o estabelecimento de medidas profilácticas à escala nacional, devidamente apoiadas em dados de estudo e investigação colhidos no próprio País.
Em 1955, foi nomeado Inspector Superior de Saúde, continuando sempre a trabalhar no sentido de melhorar os serviços de Saúde, o que, entre outras tarefas, o levou à realização de um pormenorizado inquérito sobre os laboratórios existentes no País, com vista à instituição de uma rede laboratorial de Saúde Pública, que só viria a materializar-se com a reforma de 1971.
De regresso aos Estados Unidos, em 1956, continuou a desenvolver a sua formação de Saúde Pública, através da frequência de vários cursos modulares na Universidade de Harvard. Durante esta visita, debruçou-se também atentamente sobre os problemas relacionados com a organização do ensino de Saúde Pública, problema que sempre o preocupou. De Outubro de 1968 a Janeiro de 1972, foi temporariamente incumbido da direcção do Instituto Superior de Higiene. por impedimento do respectivo titular — Prof. Gonçalves Ferreira — então ocupado em tarefas governativas.
Entretanto, fora chamado, em 1970, a dirigir o recém-criado Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Saúde e Assistência, tendo promovido a publicação dos «Trabalhos Preparatórios do IV Plano de Fomento — 1971», que constituíram um pormenorizado diagnóstico da situação de Saúde do Pais, efectuado com uma dimensão e profundidade nunca antes atingidas e que marcaram uma época no domínio do planeamento da Saúde em Portugal. Nesta fase deu grande contribuição pessoal para a elaboração do Decreto-Lei 413/71, peça fundamental da legislação de Saúde do Pais, que lançou os fundamentos de uma moderna política de saúde e determinou uma completa reestruturação dos serviços, com a criação de uma rede de cuidados primários, destinada a cobrir todo o Pais.
Cabendo à Direcção-Geral de Saúde um papel fulcral no desenvolvimento da política estabelecida por esta legislação, foi Arnaldo Sampaio, na qualidade de um dos seus artífices fundamentais, chamado à responsabilidade de a pôr em prática, tendo sido nomeado Director-Geral de Saúde em 1972. Viria a ocupar este cargo até à data da sua aposentação, em 1978. A sua acção como Director-Geral Foi o culminar de uma brilhante carreira de sanitarista.
Graças à solidez das suas concepções doutrinárias e da sua formação científica, à sua longa experiência e às suas qualidades de energia e determinação, foi-lhe possível. contra toda a espécie de obstáculos, lançar as bases duma rede de cuidados de saúde primários, segundo as concepções mais modernas de política e administração de saúde, que tem constituído a infra-estrutura básica sobre a qual, desde então, tem assentado — e continuará, certamente, por muito tempo, a assentar — o desenvolvimento de tais cuidados no País.
A acção de Arnaldo Sampaio não se confinou ao âmbito nacional. Também a nível internacional as suas actividades foram múltiplas e relevantes. Na Organização Mundial de Saúde, como membro — e, a partir de certa data e durante muitos anos, como chefe da delegação portuguesa à Assembleia Mundial de Saúde, veio a alcançar grande prestigio e a criar laços de estima e apreço pessoal por parte de muitas das primeiras figuras da Saúde internacional. Pertenceu aos Comités de Peritos da OMS e actuou por diversas vezes como consultor da Organização. Quando, em 1977, Portugal foi eleito para o Comité Executivo — a mais alta instância técnico-científica e operacional da OMS — o governo Português incumbiu-o dessa representação, atendendo à sua reconhecida competência e elevada reputação internacional.
Diz um velho aforismo inglês que «behind any successful man there is a woman».
Pode dizer-se que, no caso de Arnaldo Sampaio o aforismo tem plena aplicação. Seria injusto não aludir, na presente nota, ao papel determinante que sua Mulher, D. Fernanda Sampaio, desempenhou na realização da sua vida pública e profissional. Graças ao seu optimismo nato e ao seu espírito forte e esclarecido, D. Fernanda Sampaio, pela sua permanente solidariedade, dedicação e entusiasmo, terá constituído para seu Marido um inestimável apoio ao longo de toda a sua carreira de homem público.
Pelas suas elevadas qualidades morais e profissionais, e pela vasta obra que realizou, Arnaldo Sampaio tem lugar assegurado na história da Saúde Pública em Portugal, como uma das suas primeiras figuras. Tendo tido o privilégio de, durante largos anos, desfrutar da sua convivência, da sua amizade e dos seus ensinamentos, é com profunda saudade que aqui lhe deixamos o preito da nossa homenagem e admiração».
COELHO, Aloísio M. - In memoriam Professor Arnaldo Sampaio 1908-1984. Arquivos do Instituto Nacional de Saúde. Lisboa. ISSN 0870-2845. Vol. 9-10 (1984/85), p. 1-3.
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